A solidão de morar fora é diferente do que imaginamos
9 de outubro de 2018
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Desde o boom da imigração brasileira nos últimos anos, muito já se foi falado sobre a solidão de morar fora. Em três anos e meio morando em Portugal, chegou a minha vez de escrever sobre o assunto. Esse tempo e o meu estilo de vida aqui me dão experiências e referências, mas não quer dizer que é assim com todos. Portanto, fique à vontade para concordar ou discordar do que eu falo a seguir.



A solidão de morar fora

A solidão do meu texto é aquela que trespassa a falta de companhia para fazer programas casuais. “Vamos passear pela cidade?”,  “Quer ir na festa X?”, “Vamos à praia esse domingo?”. Isso tudo é manejado quando se é independente e autoconfiante, porém o que pega mesmo é aquela conexão profunda e mais verdadeira que parece nunca chegar quando se mora fora.

Enquanto planejamos a mudança, a solidão de morar fora é um dos contras que a gente tem mania de jogar para debaixo do tapete. Ou então, achamos que é algo fácil de ser resolvido. Principalmente, quando temos uma personalidade mais expansiva e facilidade de fazer amigos.

Porém, mesmo no nosso habitat natural, é de acordo da maioria que fazer – e manter – amizades na vida adulta passa a ser mais difícil. É quando somos livres e leves, na infância ou adolescência, que a maioria das amizades duradouras se forma. Podemos incluir ainda a faculdade onde, como jovens adultos, temos a oportunidade de nos conectar com os outros através do objetivo em comum: pegar aquele diploma a qualquer custo.

Quando os objetivos começam a se divergir, surgem os primeiros sinais de afastamento. Maria vai casar. Joana vai ter filho. Thaís quer morar fora. Cada um vira o volante para um lado, mas as pessoas continuam “ali” porque elas sempre estiveram. E a gente sabe que mesmo longe, estamos perto.

Todo aquele conjunto de referências permanece selado pelos mil momentos que foram divididos juntos. A certeza de que você viveu algo importante e concreto com essas pessoas é muito bonita e te faz sentir em família.

As referências que não existem

Só que quando se mora fora, não há referências. Não há “Lembra daquele desenho que passava quando tínhamos 10 anos?” porque “Não, não lembro porque eu nunca vi”.

Um saudoso “Poxa, a gente podia fazer tal coisa que nem na nossa adolescência, né?” não acontece porque encontra um “Desculpa, mas não vai dar porque eu não estive aqui e não sei do que você está falando.”

Quer mais um exemplo bobo das pequenas diferenças que se tornam enormes quando aplicadas a outro contexto?

Meu irmão foi criado em Portugal. Em um jogo de adedanha (ou “stop” para os paulistas), todos os atores ou cantores que ele colocava, eu nunca tinha ouvido falar. A mesma coisa acontecia com ele, com exceção a Ivete Sangalo e atores brasileiros mais famosos.

São sutilezas, trejeitos e micro comportamentos ao quais nunca tivemos acesso. Todo esse conjunto vai muito além da solidão, pois tem um gosto mais amargo de não pertencimento. E é esse não pertencer que te agonia de um jeito que só morando fora por muito tempo para entender.

solidão morar no exterior

Fazer parte de um grupo

Falando assim até parece que não consigo viver só. Parece e é verdade mesmo! Não me entenda mal, eu adoro ficar sozinha e aprecio mesmo a minha própria companhia. Me considero independente, morava sozinha no Brasil, já viajei sozinha e muitos outros etc. que provam que falta de companhia não é um determinante na minha vida.

Mas, cara, todo mundo gosta de saber que faz parte de um grupo. Todo mundo gosta de se sentir em casa. Tirar os sapatos e colocar os pés nos sofás mentais que encontramos quando olhamos nos olhos de alguém e sentimos que a identificação é mútua e sincera. Poder confiar nossas alegrias e problemas a alguém é um alívio!

Aí te perguntam “Mas quando você decidiu sair do Brasil, não sabia que seria assim?”. E eu respondo “Não!”.

Quando a gente sai do nosso país, a gente sai otimista em todas as esferas. Pode ter uma ideia das dificuldades financeiras e profissionais, mas isso da família e amigos a gente tende a passar pano. “Se eu sempre tive facilidade em fazer amigos no meu país e viajando sozinha, por que eu não teria morando fora?”

Só que é completamente diferente fazer amigos quando se está viajando. Até o mais fechado dos ingleses vai estar aberto a compartilhar numa mesa de bar ou em um quarto de hostel. Já no habitat natural deles, eles estarão mais fechados. (E é só lembrar do meu humor e receptividade enquanto eu ia e voltava do trabalho em um ônibus lotado no Rio para ver que isso também se aplica a mim.)



Conexões profundas e verdadeiras

Essas constatações te pegam de jeito e, normalmente, de tempos em tempos. Há tempos em que a gente tenta não se abalar e fazer aqui o que viemos fazer aqui, sem pensar muito nisso. Há tempos em que a gente sente que a caminhada seria mais tranquila se tivéssemos os nossos com a gente. E não tem jeito, esses tempos incomodam.

É triste sentir que essa conexão maior talvez só seja alcançada caso eu me apaixone por alguém aqui e viva uma intensa e diária história de amor. Desde que me mudei, conheci muitos brasileiros que vieram para cá ou foram tentar a vida em outros países. A esmagadora maioria em casal. Melhor, acho que não conheço ninguém que foi sozinho.

E aquelas que são casadas com estrangeiros já me relataram “O meu único amigo é o meu marido.” Elas também têm dificuldade em pertencer e isso não quer dizer que não se tente. Aproximações tentamos todos os dias, mas a barreira invisível faz com que a água não desague no mar. Ela fica presa ali, naquela amizade de conveniência.

Comentei com a minha mãe que sinto muita falta do coleguismo que existe quando se trabalha em empresa. Para profissionais criativos então, nem se fale. Mas, observando a mesa de almoço de três portuguesas dia desses, imaginei se eu teria espaço ali. Espaço físico, talvez. Espaço emocional, muito difícil.

Até mesmo os portugueses que convivi e convivo não relatam grandes amizades no campo de trabalho. Já perguntei “Mas, amor, por que você nunca fala direito do pessoal do trabalho?” e ouvi “Não há o que dizer. Trabalhamos juntos e só.”

Não quero ser taxativa, a relação pessoal dos portugueses pode sim se misturar com a profissional e dali nascerem boas amizades. Só que isso acontece em quantidade muito menor do que acontece com nós, brasileiros.

A solidão de morar fora - Portugal

Conclusão

Dizem que para alguém se adaptar a um novo lugar é preciso que se passe dois anos sem voltar ao seu lugar de origem. Hoje, eu realmente me sinto adaptada à cultura portuguesa. Aprendo coisas e jeitos novos todos os dias, mas no geral, acho que vou bem nesse quesito.

Entretanto, engrosso o coro dos veteranos que costumam dizer que você nunca se sente realmente em casa morando fora, não importando o tempo que passa. Aos novatos, desejo que seja diferente para vocês . Que a solidão de morar fora te pegue de um jeito mais brando. E que todos tenhamos alguém para contar, caso dê merda. Igualzinho quando a gente ia dormir na casa da melhor amiga aos 15 anos.



 

Designer de Moda/Gráfico Freelancer que mora em Portugal, ama animais, viajar, divagar e escrever sobre isso.
Minhas inspirações visuais e musicais estão sempre pelas minhas redes sociais, logo aqui embaixo, ó.

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2 comments

  1. Uhauuuuuuuuu!!!!
    Já te seguia antes de vir morar em Portugal e amo os seus textos mas hoje você tocou FUNDO no meu coração. Um misto de sentimentos…Feliz por saber que isso acontece com outras pessoas e tristeza por saber que é real, não é coisa da minha cabeça, confuso né!?
    Estou em uma fase muito difícil, mudei de lugar em PT e no momento estou sem trabalho, ou seja, sem contato com o mundo! Os amigos e familiares do Brasil em suas vidas e aqui nenhuma amizade profunda…me resta o conforto da minha pequena família daqui, marido e filha.
    Vamos juntas nessa!!!!
    Mas em nenhum momento me arrependo de estar aqui, adoro!
    super beijo e até o próximo texto.

    1. Olá! Nossa, que comentário lindo! Fico muito feliz em saber que toquei o seu coração. <3
      Pois é, eu nem esperava que tantas pessoas relatassem o mesmo, principalmente morando em cidades mais agitadas como Lisboa e Porto. Acho que essa sensação pertencerá sempre a nós, né? O lance é continuarmos tentando achar essas conexões mais profundas. Uma hora vai! hehe
      Um beijão!!