VIAJANDO SOZINHA PELA PRIMEIRA VEZ
30 de agosto de 2015
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Escrevo este post não para te dar um manual exato de como viajar sozinha, mas sim para mostrar que a sua primeira viagem solo pode acontecer de um jeito inesperado e pode dar muito certo. Normalmente, as pessoas planejam por muito tempo e pensam e repensam se viajar solo é uma boa ideia, porém, entre amigos que não tem a grana e as férias disponíveis ao mesmo tempo que você, é a única opção que temos.

No ano de 2012, seria a terceira vez que visitaria a minha mãe em Portugal. Queria sair um pouco da minha zona de conforto de só ficar por Lisboa e usar o dinheiro que ganhei depois de um longo processo contra a minha faculdade. Sempre digo que devemos sempre correr atrás dos nossos direitos porque o seu stress pode ser revertido em viagens depois. 🙂

Pensei em todas as cidades que eu poderia conhecer na Europa e escolhi as menos românticas porque tinha acabado um namoro há poucos meses e não estava afim de ver casal se beijando embaixo da Torre Eiffel ou ficando de pileque e sensual em Roma. 😛

Primeiro, escolhi Berlim e depois Amsterdã pela proximidade. No caso, fiz a ordem inversa só porque as passagens estavam mais baratas nas datas que eu queria. O combinado comigo mesma era passar 6 dias em Amsterdã e 5 em Berlim. Um total de 11 dias completamente sozinha e voltar ilesa para os braços da minha mãe preocupada.

Quando cheguei ao aeroporto de Amsterdã, a primeira coisa que fiz foi ir ao banheiro.

Eu olhei para o espelho e pensei, o que é que eu estou fazendo aqui?

Todos os cinco anos de inglês que fiz pareciam terem sido jogados no lixo. Eu me comunicava na mesma velocidade de uma internet discada e o meu senso de direção nunca havia sido muito bom. Mapas, ruas com nomes estranhos e uma mala enorme. Será que eu iria sobreviver?

Só nessa pequena introdução, já te aponto dois erros de principiante:

O primeiro, 6 dias em Amsterdã. Para mim e para muitos outros viajantes, é MUITA coisa. A cidade é bem pequenininha e mesmo percorrendo tudo a pé, o indicado é ficar três dias, quatro no máximo se a sua intenção for só conhecer a cidade e tal.

O segundo, a mala de rodinhas grande. Para quem quer – e precisa – se locomover rápido pelas ruas ou no transporte público, a melhor opção é a mochila ou pelo menos uma mala menor. As vezes que me perdi até achar meu hostel (e que tive que andar a mesma rua três vezes) me fazem lembrar que menos é sempre mais quando se trata de viagens.

Cheguei no hostel com todas as falas em inglês decoradas e tremendo, fiz meu check-in. Ajeitei as coisas no quarto e fui dar a primeira volta na cidade.

A primeira impressão que tive de Amsterdã foi ótima!

As casinhas que parecem de brinquedo, todos os canais vivos com barquinhos lotados de turistas felizes passando, gente linda nas bicicletas e muitas flores. Não, eu não vi nenhuma tulipa porque não era época, mas 60% dos moradores decoram as fachadas de suas casas com flores dos mais variados tipos.

Fachada em Amsterdã - Oh, Thaís!
Pontinhos de cor everywhere!
Bicicleta em Amsterdã - Oh, Thaís!
E também decoram com adesivos de gatos em formatos suspeitos.

Já a segunda impressão…

Não adianta, eu sou uma pessoa solar. Eu adoro acordar cedo e aproveitar bem o dia fazendo programas como andar de bicicleta, ficar jogada pelos parques observando as pessoas, almoçar num lugar legal, fazer compras com o dia claro…

Posso dizer que Amsterdam é apaixonante durante o dia, mas, à noite, a coisa muda de figura.

A cidade é conhecida pela legalização da maconha e da prostituição. Eu não tenho nada contra e adoro visitar culturas diferentes da minha para saber como as pessoas vivem. O problema é que toda essa facilidade para arranjar as coisas acaba atraindo pessoas que eu não faço questão de conviver, como drogados, adolescentes caindo de bêbados pelas ruas e homens mais velhos bem suspeitos e assediadores. Achei uma vibe meio carnaval em Ouro Preto, sabem? E eu, com os meus 24 anos, já não tinha mais tanta paciência para isso.

Não vou dizer que não aproveitei as noites em que passei em Amsterdã, aliás, aproveitei e muito! Eu saía para jantar aquela panqueca maravilhosa tradicional holandesa, que parece o nosso omelete e que valia por dois almoços. Ou então ficava no bar e na boate (!) que tinha dentro do meu hostel bebendo e fazendo amizades.

Panqueca holandesa - Oh, Thaís!
Pancake Bakery é um restaurante super famoso de lá.

Para quem é amante de cerveja, a cidade é uma perdição. Sério, eu sabia que a cerveja holandesa era boa, mas não tinha ideia do quanto era maravilhosa! O dia que eu mais gostei foi quando fui durante à tarde beber em uma cervejaria que fica dentro de um moinho, a Brouwerij ‘t IJ.

 

Brouwerij ‘t IJ - Oh, Thaís!
Quem resiste?

Galera na Brouwerij ‘t IJ. - Oh, Thaís

Vocês sabem que brasileiro está em todo lugar, não sabem? Não deu meia hora e eu fiquei amiga desse pessoal aí em cima. E, porque ficar em um só bar quando todas as cervejas holandesas precisam ser provadas? Daí que fomos de bar em bar, voltamos aos nossos hostels para nos arrumarmos para o segundo round e de bar em bar fomos até as quatro da manhã. Ou seja, 12 horas imersos nessa cultura holandesa de beber, andar e beliscar.

Mas, apesar desses bons momentos, eu ainda não estava convencida de que estar lá sozinha seria uma boa experiência no final das contas. Eu ainda tinha dificuldades de engatar amizades falando inglês e o meu senso de direção me indicava que eu iria me perder – e muito – em Berlim.

Quis ir de trem até lá só para ter a experiência e não me arrependi. As 8 horas de viagem contra 1:30h de avião valeram pelos pastos verdes, as vaquinhas malhadas e cenários de papel de parede do Windows. Sem falar que acho um saaaaco ter que passar por todos aqueles procedimentos de segurança em aeroportos e viajando de trem não tem nada disso.

Cheguei na moderna estação de Berlim que nunca falha (os alemães são conhecidos pela sua pontualidade) crente que iria abafar e não me perder para chegar no hostel, com o tutorial em vídeo feito por eles mesmos, mas, dessa vez…a estação falhou. ¬¬ #leidemurphy

Algo aconteceu em uma das linhas e os trens não conseguiam chegar até a estação principal. E para entender isso em alemão? Os amigos brasileiros estão sempre por aí, como eu disse. Encontrei uma brasileira que entendia um pouco de alemão, ela disse que iria demorar para consertarem, então rachamos um táxi até nossos hostels.

O hostel era mais limpo que a minha casa e o meu quarto, cheio de brasileiros (olha a gente pela terceira vez só nesse post!) animados. Em meia hora, já estava saindo para um pub com uma das meninas. O mais engraçado é que, às vezes, nós temos um sotaque tão “bom”, que a conversa permanece em inglês até alguém perguntar “Ahh, ok. Mas, você é de onde?” seguido de “Não acredito!” haha

Belushi's Berlin - Oh, Thaís!
Galera bem engajada e íntima. E eu dormindo.

Os dias que se seguiram serviram para aumentar a minha confiança e ir transformando a ideia de que…ei! Viajar sozinha pode ser legal sim. Berlim era muito maior e mais vibrante que Amsterdã e aos poucos, eu me colocava no mesmo ritmo da cidade.

No segundo dia, eu já percebi que não teria jeito, eu iria me perder. Berlim tem vários tipos de transporte público: metrô, trem, ônibus e bondinhos. Todos com nomes complicadíssimos e impronunciáveis. Diferentemente de Amsterdã, em Berlim eu tive muita dificuldade de encontrar pessoas que falassem inglês (esse fato é muito contestado por outros viajantes, acho que foi azar meu), a maioria falava um inglês ainda pior que o meu.Por causa disso, eu já saía meia hora antes do que eu pretendia só para ter certeza que chegaria na hora certa. Kkkkk

As coisas corriam bem, os monumentos e atrações que visitava eram todos belíssimos, a cerveja ainda era mais barata que na Holanda, o vento batia na minha cara e fazia o meu cabelo voar como em comercial de shampoo até que…

Meu cartão ficou preso no caixa eletrônico. Pronto, o primeiro problema sério viajando sozinha acabava de aparecer.

Saí para essa viagem com uma boa quantia no travel money, esse que era aceito em todos os lugares na Holanda, mas depois de várias negativas em Berlin e eu já irritadíssima tentando comprar coisas e não conseguindo, resolvi pôr em prática o que o pessoal do Banco do Brasil havia me dito quando eu ainda estava no Brasil:

“Claro, querida! Você pode sacar dinheiro em qualquer caixa eletrônico do mundo com o seu cartão!” ¬¬

Só que não. Quando a máquina engoliu o meu cartão, não devolveu e a tela voltou para a inicial, começou a bater o desespero. Não havia número, não havia instruções, não havia nada!

Fui do “Com licença, você fala inglês?” para “Por favor *soluços* pelo amor de Deus *soluços* você pode me ajudaaaar *nariz escorrendo*?” em duas horas. Sério, ninguém queria ou podia me ajudar. O tempo passava e eu não conseguia resolver. Não podia sair dali para ligar porque o meu cartão poderia voltar caso alguém tentasse realizar uma operação. Não podia ficar parada ali pra sempre porque não iria resolver nada.

Até que três meninas alemãs lindas e fluentes em inglês se sensibilizaram com as minhas lágrimas e ligaram para a empresa do caixa eletrônico. Para o destino se desculpar comigo, as meninas ainda trabalhavam no prédio onde ficava o caixa e estavam voltando do almoço. Me convidaram para subir e esperar lá, mas precisava ficar de olho no cartão. Uma delas, então, se ofereceu para esperar comigo e ainda me deu um lenço. Que fofa, não?

Demorou uma hora até o técnico – gato. Olha o destino mandando uma segunda desculpa. 🙂 – chegar lá e libertar meu cartão. Além do meu, havia uns outros dois cartões de turistas lá. Galera, muito cuidado quando forem sacar dinheiro em outros países!

Depois do trauma, decidi que iria sobreviver apenas com o dinheiro no travel money, quando aceitassem, e o pouco de cash que ainda tinha. Acontece que o pouco era pouco mesmo e, digamos que, precisei ser sustentada pela solidariedade de uma uruguaia que estava no mesmo quarto que eu durante uns dois dias. Nos falamos até hoje, muchas gracias Eliana! Ah, e voltei para Lisboa com apenas 5 euros no bolso. Só e mais nada.

Não vou negar que, quando voltei para a casa da minha mãe em Portugal, senti um alívio. Mas, acompanhado dessa sensação, vieram as de missão cumprida e o gostinho de quero mais. Foi aí que prometi a mim mesma que pelo menos uma vez por ano, eu iria conhecer um lugar novo.

Eu voltei tão inspirada que até escrevi esse texto, que eu chamo de “Aquela Bagagem”:

“Juntar uns trocados, suas coisas e partir por um tempo é o melhor que pode fazer por si.

Quem diz que viajar não é bom investimento, não sabe o que diz.

Ao chegar no primeiro hostel e ouvir histórias de gente que viaja há meses porque é rico, ou que juntou dinheiro por meses e largou tudo, ou gente como eu, que só estava de férias experimentando esse primeiro gostinho de liberdade, não tem como não se encantar e querer viver aquilo também.

A curiosidade de conhecer só mais um país, ou dois, ou talvez todos que eu puder até o fim da vida ronda a sua cabeça 24 horas.

Durante o tempo que fiquei fora, conheci muuuuita gente, estive em lugares que vi em filmes, comi coisas deliciosas (e horrorosas também! rs), quis chorar no transporte público lembrando como o que a gente tem na minha cidade é péssimo mas, o mais importante é que me orgulhei de mim passando um tempo completamente sozinha e desconhecida. Aquele lance de histórias para contar aos filhos, sabem?

E essa foi só a primeira constatação de que eu posso ir cada vez mais longe. Eu posso ir aonde eu quiser!!!

Quando cheguei no último aeroporto para pegar o voo de volta para casa, mesmo com o cansaço, me deu vontade de começar tudo de novo. De embarcar mais uma vez deixando um espacinho na mala para as comprinhas e lembranças. Tudo o que eu puder trazer de volta comigo.

Mas, o mais legal é que a bagagem mais importante que você traz não pode ser vista porque ela vem dentro de você. E o melhor, esta não corre o risco de ser extraviada.”

Viu só como eu sobrevivi? Você também consegue! 

Quer compartilhar sua experiência de viagem solo? Me conta nos comentários . 🙂 

Designer de Moda/Gráfico Freelancer que mora em Portugal, ama animais, viajar, divagar e escrever sobre isso.
Minhas inspirações visuais e musicais estão sempre pelas minhas redes sociais, logo aqui embaixo, ó.

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2 comments

  1. Olha, sei bem como é este sentimento, afinal aquele cliché do “viagem é o único gasto que te traz muito mais valor” acaba se mostrando pura verdade, né!?

    Os lugares aos quais fui sozinho de verdade, foram todos mais próximos, pois os fora do país, ainda não consegui a desculpa certa para deixar o marido em casa! rs Mas acho que sempre que pudermos, casados ou não, com muito dinheiro ou não (mas com o suficiente para ñ haver perrengues, claro!), temos que nos aventurar por aí. E sozinhos acho que acabamos nos permitindo a mais coisas e nos conhecendo melhor.

    E nos permitir mais (em diversos aspectos culturais etc) e nos conhecer mais, sempre serão coisas boas. Por mais que algumas experiencias advenham de perrengues…bom, lá na frente viram estórias engraçadas, né? rs

    Nunca deixe morrer esse espírito aventureiro e desbravador, que nos (tb sou desses! o/ ) fazem; pessoas com fome de comidas novas, bebidas novas, pessoas novas e lugares novos, sermos aquilo que mais queremos conquistar com essas viagens todas (eu acho! rs); novos hábitos e conhecimentos que nos tornem pessoas melhores e internacionalmente legais para qualquer lugar que venhamos a parar/ficar….. mesmo que por pouco tempo, até a próxima viagem! hehehe

    Bjs e parabéns!

    1. O seu comentário me lembra uma frase que vi uma vez “Você prefere que coisas boas ou interessantes aconteçam a você?”. Como você disse, nem sempre passamos por ótimos momentos sempre e saber que conseguimos resolver problemas sozinhos na estrada nos faz muito mais fortes!

      Obrigada e boas viagens para você!
      Beijos! 😀